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SEJA BEM-VINDO ! SEJA BEM-VINDA! VOCÊ ESTÁ EM PASSARELA CULTURAL, a sua revista on-line semanal, fundada em 02/07/2004. ***** Esta é a edição nº 624, referente ao período de 18 a 24 de junho de 2017. ***** Editor: Daslan Melo Lima ***** Timbaúba, Pernambuco, Brasil ***** Telefones: (81) 99612.0904 (Tim) e (81) 99277.3630 (Claro) ***** WhatsApp: +55 81 99612.0904 ***** E-mail: daslan@terra.com.br

sábado, 26 de novembro de 2011

DE TIMBAÚBA PARA O MUNDO - ANA GLÓRIA, TRINTA ANOS DEDICADOS À NUTRIÇÃO

ANA GLÓRIA, TRINTA ANOS DEDICADOS À NUTRIÇÃO

Daslan Melo Lima
 
          A timbaubense Ana Glória Ferreira de Araújo, nutricionista, Diretora de Segurança Alimentar e Nutricional de Timbaúba, nasceu no dia 28/11/1959, filha de  Joel Monteiro de Araújo e Maria da Glória Ferreira de Araújo,  irmã de Antonio, Joel, Tranquelino, Teotônio e Carlos Eduardo. Estudou nos tradicionais educandários Escola Santa Maria, em Timbaúba-PE, e nas Damas, no Recife, e concluiu seu curso de Nutrição na UFPE, Universidade Federal de Pernambuco.
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Ana Glória ladeada pelos pais Glorinha e Joel Monteiro, na sua colação de grau na UFPE, no dia 21/12/1981
 Ana Glória Ferreira de Araújo
                Ana Glória conseguiu uma das primeiras colocações no curso de Nutrição. Formou-se aos 21 anos e ingressou logo no mercado de trabalho. Muito jovem e requisitada para dar palestras sobre Nutrição, participou de congressos fora do Estado e  sempre foi muito querida pelos professores e colegas de profissão. Conselheira de Nutricionistas Região 6, integrante da Comissão de Ética Profissional e Conselheira de Segurança Alimentar do Estado de Pernambuco, entre os  desafios enfrentados está a conquista de ser pioneira em Pernambuco em Alimentação do Campo. Nas mais gratas lembranças da vida de Ana Gloria ressoa o discurso do  paraninfo da sua turma de Nutricionistas, o Prof. Nelson Chaves (1906-1982), fundador do  Curso de Nutrição da UFPE: "Vocês escolheram uma profissão da mais alta importância social,mas mal compreendida e injustiçada.É uma profissão que contribui para a formação de recursos humanos, que se apoiam nos seguintes pilares: Nutrição, Saúde, Educação, Espiritualidade e Ética. Esses pilares estão sendo corroídos e ameaçados de destruição à picareta, mas são eles que formam a base dos recursos humanos, mais importantes que os recursos naturais. Somente os povos que dispõem de grandes recursos humanos ocupam posição destacada na História. Sem Nutrição adequada não é possível imunidade, boa saúde, vida prolongada, produtividade, crescimento adequado, etc".
 D. Glorinha, Teotônio e Ana Glória
          As verdades de Ana Glória no melhor estilo entrevista ping-pong.   Dia ou Noite?  - Dia. /// Samba ou Frevo? - Frevo. /// A cidade dos seus sonhos -  Londres e Paris. /// Sonho de consumo - Viajar e conhecer outros lugares. ///. Um momento para recordar - Minha formatura de Nutrição. /// Seu maior defeito - Sou muito exigente./// Sua maior virtude - Meu amor ao próximo. /// O que mais admira em um ser humano - Simplicidade. /// O que não suporta em um ser humano - Prepotência. /// A maior invenção humana - A gastronomia. /// A pior invenção humana - A bomba atômica. /// Se o mundo fosse acabar amanhã o que faria hoje? - Viver o hoje. /// Se fosse Presidenta da República o que faria para reverter a violência? - Melhoraria a educação alimentar brasileira. /// Comida Preferida - Salada de Legumes com Atum e Ervas Finas. /// Bebida - Vinhos. /// Sobremesa - Salada de Frutas. /// Cor Verde. /// Clube Esportivo - Santa Cruz. /// Um Jogador - Garrincha. /// Superstição - Assinatura do meu nome com caneta preta. /// Viver é...  Colocar em prática todo seu planejamento de Vida sem atropelar etapas importantes da vida. Amar intensamente seu momento agora, curtir  cada segundo, aplaudir os acertos e corrigir  os erros. /// Envelhecer é ...  Viver o seu agora com muita inteligência e espiritualidade, sem censuras, voltar a ser criança mimada e amada por todos. /// Morrer é ... Acreditar na ressurreição e na Vida eterna./// Um Filme Inesquecível - O Nome da Rosa. /// Um programa de TV - Sem Censura. /// Um livro - Os do poeta Fernando Pessoa /// Uma canção - Amanhã, de Guilherme Arantes. /// Um frevo - Morcego./// Um cantor - Guilherme Arantes. /// Uma cantora - Maria Betânia. /// Um ator - Tony Ramos. /// Uma atriz - Nathalia Timberg.  ///  Uma Miss Pernambuco - Suzy Rego, Miss PE 1984 /// Uma Miss Brasil: A baiana Martha Rocha, Miss Brasil 1954. /// Uma Miss Universo - A gaúcha Ieda Maria Vargas, Miss Brasil  e Miss Universo 1963. /// Um (a) Nutricionista que a História guardou - A carioca Dra. Lieselotte  H. Ornellas. /// Um (a) Nutricionista que a História vai guardar -  A pernambucana Dra.Elenice Costa. /// Qual a celebridade que você adoraria orientar sua alimentação? Dom Fernando Saburido, Arcebispo de Olinda e Recife. /// Uma saudade - Meu pai, minha avó Minervina Barbosa e meu irmão Toinho. /// Um motivo de arrependimento - Arrependo-me das coisas que não fiz. /// Um motivo de orgulho - Ser timbaubense. /// Um ponto turístico de Pernambuco - O Alto da Sé de Olinda. /// Um ponto turístico de Timbaúba - O Morro da Independência.

      Quando perguntei a Ana Glória qual a personalidade que era a cara de Timbaúba, ela não citou nenhuma pessoa, citou os Morros da Cidade.  "A cara de Timbaúba  é o conjunto dos  morros : Morro da Abolição (Alto do Cruzeiro), Morro da República (Alto Santa Terezinha) e Morro da Independência (Alto da Independência)". Católica, devota de Santo Antônio, Ana Glória falou emocionada: "Tive a oportunidade de nascer numa família cristã, onde meus pais faziam questão de ajudar  as pessoas mais necessitadas. Quando meu pai comprou a primeira TV em Timbaúba-PE, todos assistiam. As pessoas do Alto da Independência desciam para assistir ao Repórter  Esso e aos  jogos da Copa do Mundo.  Esse fato ainda hoje está na memória de muita gente, a oportunidade de ver  TV em minha casa sem  preconceito de cor,raça ou classe social. Isso nos faz grande por dentro e nada no mundo preenche essas lembranças."

Ana Glória na posse de Anísio Brasileiro de Freitas Dourado, Reitor da UFPE. “A luta de trazer um campus da UFPE para Timbaúba-PE é muito grande, mas me sinto muito feliz em ser uma ex-aluna da UFPE que está contribuindo para a realização desse sonho na minha cidade natal.  Em âmbito nacional existe uma corrente de contribuições e apoio à implantação do Campus. Grandes timbaubenses, anonimamente, estão de mãos dadas em torno da  implantação da UFPE em solo timbaubense”.

      E assim, conhecemos um pouco de Ana Glória Ferreira de Araújo, uma timbaubense que convive com as recordações que moldaram sua personalidade e que norteiam sua caminhada dia e noite. Finalizando seu depoimento exclusivo ao PASSARELA CULTURAL, a Diretora de Segurança Alimentar e Nutricional de Timbaúba  disse emocionada: "Guardo para sempre comigo as lembranças dos domingos timbaubenses, quando  eu  ia com Teotônio fazer visitas nas casas das senhoras que trabalhavam na minha casa e moravam no Alto da Independência,  Dona Biu e Ana, lavadeiras, pessoas sábias que sabiam o verdadeiro sentido da Vida. Nas  casas humildes existiam  uma cadeira para descansar a subida do morro e o terreiro bem limpinho,com a vassoura de galhos de mato. Outras tinham um tronco de árvore na frente para sentar. Tudo tão carinhoso... Sempre tinha um bolo feito com muito amor e tapioca de coco ou cocada com café para tomar.O dia era tão feliz que parecia que estávamos bem pertinho do céu. Lá longe as estradas de barro que davam acesso à Princesa Serrana. Imagens únicas de minha infância feliz".
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DE ALAGOAS PARA O MUNDO - Assis, um anjo do Ginásio São José

Daslan Melo Lima

          Meu telefone celular tocou na tarde cinza de quinta-feira, 24/11/2011. Era a voz do Apolônio Cardoso, conterrâneo-contemporâneo, para me dizer que Francisco de Assis Pereira, um dos referenciais da educação da nossa amada São José da Laje tinha sido convocado por DEUS para uma nova missão em outra dimensão. Apolônio Cardoso disse-me  “... eu já sabia que o mesmo estava doente, acamado, mas nós nunca estamos preparados para esse tipo de noticia. Principalmente de uma pessoa que marcou a nossa vida, a vida de nossa família. Sou muito e serei sempre grato a tudo que ele fez por mim e por toda a minha família. Lamento profundamente, apenas peço e rogo a Deus para que conforte a sua  esposa Dona Valda e seus maravilhosos filhos e netos.“

Francisco de Assis Pereira nasceu no dia 18/02/1935, na cidade de Ouricuri, PE, filho de Camilo José Pereira e Celina das Neves Pereira.  Faleceu em São José da Laje, AL, em 24/11/2011. Era casado com Valda de Oliveira Pereira e deixou cinco filhos: Fabíola de Oliveira Pereira, Fabian Klaus de Oliveira Pereira (Didiu), Francisco de Assis Pereira Júnior (Bolinha), Frances Maria de Oliveira Pereira e Flavyanne de Oliveira Pereira.

         De repente, um filme, em nostálgico preto e branco passou em minha cabeça. Eis-me em São José da Laje, aluno da 1ª série ginasial, final de ano. Assis foi meu primeiro professor de matemática, uma matéria que eu não gostava. Fui reprovado em matemática e fiquei para segunda época, ou seja, eu só passaria para o 2º ano do curso ginasial se me submetesse a um cursinho preparatório e depois a uma prova. O valor do tal cursinho custava 200 cruzeiros em moeda da época, um valor muito alto para a precária situação financeira do meu pai, o sapateiro Odilon Gomes da Silva. Deus sabe como foi complicado conseguir aquele dinheiro, que tanta falta iria fazer para comprar alimentos. Na hora que passei o valor para Assis, ele conferiu cédula por cédula, olhou fundo nos meus olhos, balançou a cabeça  e disse: “Eu não vou aceitar.Volte com esse dinheiro e devolva ao seu pai”. Que notícia boa! A feira da semana não ia mais deixar de ser feita.
      Na semana seguinte, dia da prova, não consegui responder nenhuma pergunta correta. As dificuldades econômicas do meu pai, os problemas que ele enfrentava por causa de bebida alcoólica e os conflitos entre ele e Ana Melo Lima da Silva, minha mãe, estavam prejudicando a minha capacidade de concentração no estudo. Fui reprovado e tive que repetir e primeiro ano ginasial. Felizmente, mais adiante, com fé em Deus, consegui contornar os problemas e cheguei a tirar algumas notas 10 em Matemática durante o restante do curso e, por extensão, consegui ser o primeiro aluno da classe por várias vezes.  
      Eu nunca esqueci aquele gesto humanitário de Assis.  O seu olhar e a maneira como ele pegou no dinheiro denotava carinho e compaixão para o menino pobre que eu era. A forma como ele me olhou quando recebi a notícia de que fui reprovado no exame de segunda época calou fundo na minh'alma. Foi como ele se dissesse “estude, estude, só assim um dia você  vai superar as dificuldades da vida.”  Assis e outros professores do meu tempo de infância foram anjos do Ginásio São José.
Da esquerda para a direita, Maninho (professor de Matemática), Antônio Aquilino (professor de História), Marcos Pino (professor de Português), Josenira Albuquerque (professora de Português), Amaury Vasconcelos de Andrade (professor de Geografia) e  Francisco de Assis Pereira (professor de Matemática). 
          Fui aluno de quatro deles:  Antônio Aquilino, um ex-seminarista que tinha desistido de seguir a carreira eclesiástica. Com ele, tive algumas das mais empolgantes aulas de História da minha vida; Josenira Albuquerque, a Nirinha, Miss São José da Laje 1965; Dr. Amaury, que sabia conciliar as atividades de dentista com as de professor, que elogiava a beleza das mulheres gregas e adorava poesia; e Assis, um anjo do Ginásio São José, meu inesquecível professor de Matemática,  que um dia, com um simples olhar, deu-me uma das mais preciosas lições da minha vida.

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SESSÃO NOSTALGIA - Maria da Consolação Teixeira e Silva, Miss Piauí 1963

Daslan Melo Lima

          Rio de Janeiro, Maracanãzinho, noite fria de 22 de junho de 1963, eleição da mulher mais bela do Brasil. Quem não conheceu o tempo áureo do concurso, não tem ideia da grande importância que o evento despertava em todo o Brasil. O texto adiante, publicado na revista O Cruzeiro, de 13/07/1963, dá uma noção da grandiosidade do evento.  

"Foi a maior cheia do estádio. Era um mar de cabeças nas arquibancadas – do chão ao teto – Se o IBGE baixasse no Maracanãzinho reuniria estas cifras: 14.000 arquibancadas, 3.200 cadeiras, 1.000 mesas, 1.000 cadeiras especiais, 500 repórteres e fotógrafos, 50 garçons, 12 copeiros, 4 maitres, 10.000 refrigerantes, 5.000 cervejas, 150 soldados da PM, 200 funcionários do estádio, 30.00 salgadinhos, 100 barras de gelo, 6 maquiladoras, 10 quilos de cosméticos, 32 espelhos para as Misses e 161 lâmpadas de 1.500 ws, que iluminaram a maior promoção-beleza de todos os idos. Calculando por baixo, sem exagero latino, o Maracanãzinho  estava na sua carga máxima (digamos): 30.000 pessoas. Foi safra excelente para aos cambistas, que revenderam mesas de Cr$ 8.000 por Cr$ 50.000,00, e arquibancadas de Cr$ 300,00 por Cr$ 1.500,00."

       Vinte e quatro jovens disputaram o título máximo da beleza brasileira, conquistado por uma gaúcha maravilhosa chamada Ieda Maria Vargas, que depois traria de Miami Beach o título de Miss Universo. 

"Pela primeira vez, desde que existe o concurso, o público, os jurados e as próprias candidatas concordaram em que a coroa de Miss Brasil só poderia cingir a cabeça de Miss Rio Grande do Sul, Ieda Maria Vargas." 
(Manchete, 06/07/1963)

         Todavia, entre as 24 moças, havia uma que poderia muito bem ter conseguido um lugar entre as finalistas, tanto que a maior revista da época, O Cruzeiro, integrante dos Diários e Emissoras Associados, promotores do certame, referiu-se a ela como "a  grande  esquecida do júri". Seu nome : Maria da Consolação Teixeira e Silva, Miss Piauí. Segundo a revista, a piauiense empatou com Miss Pará na disputa por uma posição entre as oito finalistas. No desempate, venceu a paraense Nilda Medeiros, irmã de Gilda Medeiros,  Miss Pará 1955, terceira colocada no Miss Brasil 1955. Nilda Medeiros obteve o sétimo lugar, mas de acordo com a revista Manchete, de 06/07/1963, ... não ficou entre as três finalistas por causa da profunda cicatriz de vacina em seu braço.”
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A GRANDE ESQUECIDA DO JÚRI: - Miss Piauí, pouco promovida antes do concurso, foi a grande surpresa no desfile de maiô, de vestido de baile e típico. Entretanto, não foi classificada.(O Cruzeiro, 13/07/1963)
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O primeiro traje típico de uma Miss Piauí - Vaqueiro do Nordeste, traje confeccionado em pele de veado capoeiro, trabalhado em fios e em lâminas de ouro, chapéu, gibão peitoral, sapatos e rebenque. (O Cruzeiro, 13/07/1963)
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"Maria da Consolação Teixeira, Miss Piauí, era a de traços mais delicados." (Manchete, 06/07/1963)
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Maria da Consolação Teixeira e Silva, de cabelos soltos, Miss Piauí 1963, e Ieda Maria Vargas, Miss Rio Grande do Sul-Miss Brasil-Miss Universo 1963.
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          Quando entrevistei o missólogo piauiense Fernando José Bandeira para esta secção, em 08/10/2011, perguntei qual a Miss Piauí mais injustiçada da história do Miss Brasil.  Resposta: "Essa é fácil! Maria da Consolação Teixeira e Silva, Miss Piauí 1963. Há muita especulação em torno de sua desclassificação como semifinalista no Miss Brasil, desde política, desempate e até preconceito. Concurso de Miss é mesmo um sonho, uma verdadeira fábula. Mas, Consolação Teixeira foi realmente prejudicada naquele ano". Quando perguntei qual a Miss Piauí que teria sido uma ótima Miss Brasil, Fernando Bandeira respondeu: "Maria da Consolação Teixeira e Silva, em 1963.  A exemplo do que foi, bela, elegante e serena, acredito nessa possibilidade. Isso sem contestar a vitória da gaúcha Ieda Maria Vargas, Miss Brasil, Miss Universo 1963".

          Maria da Consolação Teixeira e Silva, que representou  o Jockey Club do Piauí no concurso estadual, permaneceu no seu Piauí depois do Miss Brasil. Casou, mora em Teresina e teve três lindos filhos, incluindo Rachelle, A Mais Bela Estudante do Piauí  de 1983. Tão bela como a mãe, Rachelle recusou todos os convites recebidos para disputar o título de Miss Piauí. Talvez   não tenha aceito o convite com receio de ser eleita,   e na disputa do  Miss Brasil ser esquecida pelo júri, como um dia foi sua mãe Maria da Consolação Teixeira Silva, um dos maiores ícones da beleza do Piauí de todos os tempos.
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A eterna Miss Piauí 1963, cinquenta anos depois. 
Foto: Raoni Barbosa/Revista Cidade Verde, maio de 2013.

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domingo, 20 de novembro de 2011

SESSÃO NOSTALGIA - DIRCE MACHADO, MISS RENASCENÇA 1960

Daslan Melo Lima
PRÓLOGO

          “Uma negra foi eleita Miss Universo 2011”. A imprensa do mundo inteiro divulgou essa notícia em setembro último, referindo-se à vitória da bela Leila Lopes, Miss Angola.  Caso a vencedora tivesse sido uma candidata de cor branca, ninguém diria: “Uma branca foi eleita Miss Universo 2011.”
         Domingo, 20/11/2011, Dia de Zumbi, Dia Nacional da Consciência Negra e Dia Nacional de Combate ao Racismo. O assunto mexe com minh’alma de forma extraordinária, pois sou um dos milhares de brasileiros que traz no tom da pele histórias de luta e sofrimento de uma raça que tanto contribuiu para a construção da nação brasileira. Meu pai era mulato, filho de uma negra que foi abandonada pela família quando um branco a engravidou. Minha mãe era branca, filha de uma morena com um louro de olhos azuis. Cresci às margens do Rio Canhoto, em São José da Laje, Alagoas, roteiro dos negros escravos que na época da escravidão buscavam refúgio na Serra da Barriga, na vizinha cidade de União dos Palmares, berço de Zumbi. 

  Dirce Machado, Miss Renascença 1960

          Nesta Sessão Nostalgia rendo um tributo a Dirce Machado, Miss Renascença, quarta colocada no Miss Guanabara 1960, a primeira brasileira negra a alcançar extraordinário sucesso em um concurso oficial de beleza onde a maioria das concorrentes era de cor branca.

RENASCENÇA, A FUNDAÇÃO DO CLUBE,  OS FUNDADORES E O PERFIL DE SUAS MISSES 

          O texto abaixo foi transcrito do livro A ALMA DA FESTA, de Sonia Maria Giacomini – Editora UFMG-Universidade Federal de Minas Gerais- 2006. A autora é doutora em Sociologia, mestre em Antropologia Social e professora do departamento de Sociologia e Política da PUC-Rio. A Alma da Festa, abordando família, etnicidade e projetos no Renascença Clube, originalmente foi uma tese de doutorado em Sociologia, ganhadora em 2005 do Prêmio IUPER (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro, unidade de Pós Graduação, Mestrado e Doutorado em Sociologia e Ciência Política da UCAM-Universidade Candido Mendes.

O Renascença Clube foi fundado em 17 de fevereiro de 1951 na cidade do Rio de Janeiro, então Distrito Federal, como “clube social, recreativo, cultural e esportivo”. Entre os objetivos da associação, o Artigo 2º do Estatuto alinha a intenção de “promover e estimular a união e o espírito de solidariedade entre os sócios e pessoas de suas famílias sem qualquer prevenção de preconceito”.
À época de sua criação, o Renascença Clube contava com um núcleo de 29 sócios fundadores, todos negros segundo os relatos e registro. É marcante a presença feminina neste momento de criação e estruturação do Clube, já que elas eram 18 no grupo fundador – contra 11 homens – e duas na primeira Diretoria – contra quatro homens. A mulher do grupo fundador do Renascença é idealmente a mulher de família, isto é, honrada, culta, bem-vestida, elegante e, sobretudo, refinada. Essa mulher negra ideal, digna, é o produto e, quando casada, simultaneamente o centro de uma família sólida, bem-estruturada, que propicia o acesso ao estudo e a uma educação requintada. Esse ideal feminino permanece encarnado à perfeição na figura da miss ou rainha da primavera de outros concursos de beleza similares, promovidos pelo Clube nessa época. A miss é sempre a filha, sobrinha, afilhada de algum sócio que, durante alguma das muitas ocasiões de convívio e sociabilidade, é, por sua simpatia, beleza, elegância e boa educação, convidada, geralmente pela Diretoria Social, para participar do certame. A miss do concurso deve ser “bela”, à imagem dos certames de beleza tão em voga, no período, na cidade e no Brasil, mas, sobretudo, de uma beleza que não deixe margem a evocações que possam ser contrárias à honra. A miss é de uma beleza digna e honrada: com “brio”, “requinte”, “distinção”...
Os primeiros concursos de rainha – ou de miss – promovidos no Renascença Clube, como a grande maioria das atividades da primeira década, eram eventos internos, organizados pelos e para os associados. Ao final dos anos 50, vieram dar um novo impulso à vida social, somando-se aos saraus, desfiles de moda, bailes, almoços e coquetéis, que reuniam nos finais de semana quase sempre as mesmas pessoas e família. Progressivamente os concursos começam a se impor sobre o conjunto da vida social, e vai se evanescendo a aura doméstica, ou familiar, se se preferir, que haviam herdado dos anos 50. A regularização e prestígio do Concurso Miss Renascença sinalizarão a entrada em uma nova era.
As transformações dos concursos em eventos mais amplos e com maior visibilidade são invariavelmente associadas ao nome de uma sócia, Dinah Duarte, proprietária de um conhecido salão de beleza mo Méier, subúrbio carioca não muito distante do centro da cidade. Dinah é apontada em todas as entrevistas, se não como a criadora do concurso, ao menos como a grande responsável pela incorporação de inovações que tornaram um evento, inicialmente tímido e restrito, em algo considerado realmente importante, impactante e significativo. Com Dinah Duarte, afirmam os entrevistados e as inúmeras matérias colhidas em revistas de grande circulação e em diversas edições do Jornal do Renascença, os concursos realizados no Clube iniciam uma nova fase voltada para a preparação e disputa nos certames estaduais, competindo abertamente com as candidatas de outros clubes.

DIRCE MACHADO, MISS RENASCENÇA 1960

         Vamos entrar no Túnel do Tempo e rever a trajetória de Dirce Machado, a primeira deusa do ébano da história do Miss Guanabara-Miss Brasil.

As 24 candidatas ao título de Miss nº 1 da Guanabara começaram a operação-maquilagem às 17 horas, para o desfile que só teve início às 21.30. O Maracanãzinho, na noite do dia 4, estava quase repleto. O público dividia-se em torcidas contra a mensagem azul das passarelas, onde as moças bonitas deram os 270 passinhos aprendidos na Socila. 52 lâmpadas de mil “watts” iluminaram o canteiro de belas. E assim todo o Maracanãzinho pode ver, em detalhes, as concorrentes, que desfilaram de vestido de baile e, depois, de maiô. Sucesso, sem dúvida, tanto para o público como para os entendidos, foi Dirce Machado, do Renascença. Depois que o “Orfeu do Carnaval” deu curso internacional à mulata, como produto genuinamente brasileiro, as semi-“coloreds” passaram ao domínio da passarela. E eis que Dirce abalou o Maracanãzinho, vindo, ao final, a obter a quarta colocação. E notem que grande parte dos espectadores votou nela para melhor colocação. (O Cruzeiro, 18/06/1960)

Dirce Machado foi a sensação da noite. Mulata elegante e bonita, ela empolgou o público, que a aplaudiu todo o tempo em que estve na passarela. Dirce é recpcionista num cabeleireiro da Tijuca, mora em Catrumbi e foi apresentada pelo Renascença Clube, no Méier. É carioca, mede 1,65m, pesa 508 quilos e veste manequim 44. (Manchete, 18/06/1960)

Dirce Machado entre as 8 finalistas do Miss Guanabara 1960. Da esquerda para a direita: Elvira Bela Grubel (Miss Jacarepaguá, oitava colocada), Martha Vieira Angermann (Miss Fluminense, sexto lugar); Dirce Machado (Miss Renascença, quarta colocada); Maria Helena Thomé (Miss Uruguai Clube, segundo lugar); Gina Macpherson (Miss Botafogo, primeira colocada); Shyrley da Silva Carneiro (Miss Grajaú, terceiro lugar); Elenita Teixeira Lôbo (Miss Marã, quinta colocada); e Sônia Brasil Pinto (Miss Vasco da Gama, sétimo lugar). ***** (O Cruzeiro, 18/06/1960)
EPÍLOGO


         Há um ano, ouvi uma figura influente dizer que não adiantava mandar uma negra para disputar um título de Miss, pois o preconceito existia. Imagine isso em 1960 ! Aplausos, mil aplausos para Dirce Machado, Miss Renascença 1960, que tanto contribuiu para elevar a auto-estima de milhares de jovens negras, num tempo em que racismo não dava cadeia.
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sábado, 12 de novembro de 2011

CRÔNICAS DE DASLAN MELO LIMA

COMETAM AMOR

Daslan Melo Lima


... Eu quero me enrolar nos teus cabelos,
abraçar teu corpo inteiro,
  morrer de amor, de amor me perder...
      Quando a canção “Moça”, na interpretação de Wando, explodiu nas paradas de sucesso de todo o Brasil, eu vivia mais uma das mil paixões platônicas que inundaram a minha vida. Fiquei triste com a morte dele, ocorrida na quarta-feira, 08, da mesma forma como fiquei triste quando partiram outros cantores românticos populares como Altemar Dutra, Alcides Gerardi, Anísio Silva, Nélson Gonçalves, Núbia Lafayette, Waldick Soriano...
     A propósito, outro dia,  um jovem leitor de PASSARELA CULTURAL perguntou-me o porquê de eu gostar de falar de coisas passadas em minhas crônicas.  Na condição de romântico assumido e sentimental incorrigível, vou responder agora com um trecho de outra música do Wando:
...Talvez hoje vocês me julguem assim,
um cara cansado, velho, mas não é nada disso.
 A verdade é que eu gosto de retornar  às minhas coisas antigas
 porque elas me fazem muito bem.
E vou dar um conselho pra vocês:
Cometam amor porque amor faz bem, ao espírito, ao coração...

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 VERÃO COM CARA DE INVERNO

Daslan Melo Lima

            
          A bela foto acima, clicada por Alexandre Gondim/JC Imagem, ilustrou a matéria "Verão com cara de inverno", na primeira página do caderno Cidades, do Jornal do Commercio, Recife, edição de 24/01/2012. Um poema em forma de foto, mostrando o casario da Rua da Aurora e o Rio Capibaribe repleto de baronesas.
        Durante quatro anos da minha vida, a Rua da Aurora e o Rio Capibaribe foram testemunhas de alguns dos meus sonhos mais sonhados, quando eu passava para estudar no tradicional Ginásio Pernambucano. Eu estava no verão da minha vida, mas era um verão que muitas vezes ficava com cara de inverno, quando, confuso  e preocupado com que o futuro me reservava, sentava-me  às margens do Capibaribe sonhando com um verão permanente em minh'alma. 
       Na maturidade das nossas vidas podemos entender melhor as sábias lições da natureza. Verão e inverno dentro de nós. Verão e inverno fora de nós. Nem tudo é verão, canta o céu quando a chuva cai. Nem tudo é inverno, canta o céu quando o sol sai. 
       Assim Seja ! 

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 AI SE EU TE PEGO

Daslan Melo Lima

Nossa! Nossa! / Assim você me mata!  / Ai se eu te pego! / Ai, ai, se eu te pego! / Delícia! Delícia! / Assim você me mata! / Ai se eu te pego! / Ai, ai, se eu te pego!

      Peço perdão aos meus leitores mais conservadores, mas confesso que gosto da sensualidade que emana dos versos dessa música que atravessou as fronteiras brasileiras através da voz de Michel Teló. Os jovens de  hoje desconhecem a repressão sofrida pelos rapazes e moças da minha geração. Na minha juventude, garotos e garotas, principalmente os meninos, tinham de se policiar a todo momento, pois bastava um rebolado sutil, um leve balançar de quadris, para sermos estigmatizados como integrantes da juventude transviada.

Nossa! Nossa! / Assim você me mata!  / Ai se eu te pego! / Ai, ai, se eu te pego! /

                 Acredito que “Ai se eu te pego” vai ser uma das músicas mais tocadas do carnaval deste ano. Espero ouvi-la nos poucos e selecionados focos de folia em que irei comparecer, a fim de, com sabedoria, permitir que o garoto tímido que um dia eu fui entre na sintonia de outra realidade. Distanciado dos amores impossíveis e proibidos de ontem, e aberto para viver com equilíbrio os amores possíveis e permitidos de hoje, cantarei e dancarei a música do Michel Tolé.     

 Delícia! Delícia! / Assim você me mata! / Ai se eu te pego! / Ai, ai, se eu te pego!

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 DIANTE DO PORTO DE CABEDELO

Daslan Melo Lima


       Sou um homem de poucas viagens pelo Planeta Terra.  Sou um homem de muitas viagens para dentro de mim. 



      Diante do Porto de Cabedelo, Paraíba, tenho plena consciência que não preciso de nenhum navio. Os meus pensamentos podem me levar para qualquer mar. Estou preparado para administrar as tempestades dos meus mares interiores. 

    Aprendi a equilibrar a minha embarcação e sigo em frente, eterno aprendiz em todos os portos que Deus colocar na minha rota.
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Cabedelo-PB, janeiro de 2012.

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VELHO ANO NOVO

Daslan Melo Lima
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               Final de 2011. Sensação de algo morrendo em mim e ao redor de mim. 
Talvez seja por conta da última folha de dezembro que logo mais destacarei do calendário.
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               Final de 2011. Sensação de algo nascendo ao redor de mim. Talvez seja a vibração positiva do vento, ou os anjos invisíveis que estão dançando para saudar o novo ano.
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                Final de 2011. Morro um pouco com ele, como tantas vezes morri nos finais dos anos que se foram, para sempre se foram. 
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                 Final de 2011. Renascerei um pouco em 2012, como tantas vezes renasci nos inícios dos anos que se foram, para sempre se foram.
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ALGUMAS LÁGRIMAS CONTENTES

Daslan Melo Lima

          Ganhei vários presentes de Natal, entre eles um do meu amigo Dido Borges, de São Vicente Férrer-PE, um  cd de Clara Nunes (1942-1983), reprodução do vinil Claridade, de 1975, que tem a canção "Que Seja Bem Feliz", do Cartola (1908-1980). 

Se bom pra você for, / pode partir, amor. / E que seja feliz / e muito bem feliz. /// Que Deus e a natureza, / as aves nos seus ninhos, / as flores pela estrada / perfumem todos os caminhos.  /// Eu aqui ficarei. / Por você rezarei / todas as tardes /ao bater Ave-Maria. /// Que seja bem feliz / e leve-me na mente. / Que cresçam suas glórias / e as minhas lágrimas contentes.

         Muito mais que poesia, a canção é uma verdadeira oração. Imagine você saber que está perdendo um grande amor e, no lugar de ficar desesperado, pede  a Deus para que ele seja feliz e muito bem feliz.

      Um pouco de melancolia teima em se instalar em nossos corações nestas festividades de Natal e Ano Novo. Se isso acontecer, devido a certo alguém que um dia se foi, qualquer que tenha sido a circunstância, imagine que ele esteja feliz. Reze. Imagine que ele tem você na mente. Reze, peça a Deus que cresça suas glórias, ponha um sorriso no rosto e deixe escapar algumas lágrimas contentes.
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Timbaúba-PE, antevéspera do Natal de 2011
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Ouça Clara Nunes interpretando “Que seja bem feliz”,     http://www.youtube.com/watch?v=ZDUK_h5lDk4

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 UM PRESENTE DE NATAL PARA ROSA CALDAS

Daslan Melo Lima

          Lembro-me de um dezembro de um tempo que se foi, para sempre se foi.  Minha prima Rosa (Maria Rosângela Silva Caldas) chegou à minha casa e pediu-me que lhe desse de presente um livro infantil que fazia parte da minha coleção de publicações infantis. Tratava-se de Lady, de Walt Disney, que falava de uma linda cachorrinha rica, uma dama  que se apaixonava por Travesso, um vira-lata, um vagabundo. Eu gostava muito da Rosa, mas era incapaz de desfazer-me daquele livro mágico que tanto combinava com o Daslan-menino, romântico e sonhador.


 
        
          Na semana passada, encontrei em um “sebo” do Recife, um exemplar idêntico de Lady. Comprei o livro e enviei  ontem pelos Correios para a minha prima Rosa, que continua morando em São José da Laje-AL, a Princesa das  Fronteiras.

 

         Gostaria de viajar com o pensamento, acompanhado do silêncio e do vento, para estar ao lado de Rosa quando ela abrir o envelope, a fim de  testemunhar sua emoção. Mas  estarei aqui em Timbaúba-PE, a Princesa Serrana, relendo o meu exemplar de Lady no dia de Natal, para atender aos insistentes pedidos da criança que um dia fui.

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Timbaúba-PE, no 16º dia de dezembro de 2011, a um passo do Natal.

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IRMÃ VIDA, IRMÃ MORTE

Daslan Melo Lima

          Gosto muito da história de São Francisco de Assis (1182-1226) e do seu Cântico do Sol, onde ele trata todas as coisas por irmãs: Irmã Terra, Irmã Lua, Irmão Fogo...


          No Alto do Cruzeiro, em Macaparana, Pernambuco, na companhia do Irmão Sol e do Irmão Vento, sinto-me tão leve que tenho a impressão que posso voar como minhas Irmãs Aves.
             Ao lado do Irmão Silêncio, mergulho em mim caminhando lentamente ao redor da Capela dedicada ao Irmão São Francisco de Assis. As Irmãs Nuvens  são testemunhas das mil falhas que tenho como ser humano, mas também são testemunhas que todos os dias peço a DEUS para que Ele me faça um instrumento de sua Paz.
                     
                             E assim, após renovar minha alma de Esperança e Fé,  estendo minhas mãos à Irmã Vida, consciente que um dia estenderei minhas mãos à Irmã Morte, rumo a uma nova missão em outra dimensão.
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EU NÃO VIREI MACACO


Daslan Melo Lima

          “Dizem que em sessenta nego vai virar macaco! / Olham vejam só que grande confusão! " Assim começava o frevo pernambucano “Operação Macaco” , de Nelson Ferreira e Sebastião Lopes, na interpretação de Nerize Paiva, muito tocado nas rádios durante um carnaval da minha infância alagoana em São José da Laje. Comentava-se que um “profeta” americano teria dito que quando chegasse o ano de 1960 todos os negros virariam macacos. Se fosse hoje, um assunto desse não teria credibilidade alguma na mídia, assim como a música, politicamente incorreta, jamais seria gravada.
          Meu pai, filho de uma negra com um homem branco, era mulato. Minha mãe era branca, filha de uma morena com um louro de olhos azuis. Meu pai era sapateiro e minha avó paterna ganhava a vida carregando lata d’água na cabeça, enquanto minha mãe vinha de uma família de melhores condições financeiras. Lembro-me de ter ouvido meu pai dizer a minha mãe: “Daslan é estudioso, mas a cor da pele vai atrapalhar a vida dele. Se ele fosse mais claro, ou se fossemos ricos, a história seria diferente.”
           Em São José da Laje havia duas famílias afrodescendentes ricas, os Martins e os Bernardo, pessoas finas que gozavam de grande prestígio na sociedade local. Dois integrantes de ambas as famílias foram colegas meus no Ginásio São José, José Bernardo e Antonieta Martins. Por parte dos meus companheiros de estudo, não sofri discriminação por causa da cor da minha pele, embora me sentisse inferior, por conta da precária condição econômica dos meus pais. Outra coisa, soava estranho ouvir expressões assim: Ele é um negro de alma branca... Negro quando não caga na entrada solta um peido na saída... A coisa está preta...
          Voltando ao frevo “Operação Macaco”, eis a letra completa da música: Dizem que em 60 nego vai virar macaco. / Ora vejam só que grande confusão. / Se for verdade essa Operação Macaco, / penca de banana vai custar um milhão. /// Quem mata um gato tem sete anos de azar. / Tem nego como o diabo fazendo tchuitchui. / Se for verdade o que diz o profeta, / o que seria de Pelé ou do Didi?/ Nego é gente igual a gente, / muito preto existe pra ninguém botar defeito. / Profeta toma jeito, / cuidado com a negrada, / se ela te pega vai dizendo, olha a papada.
          Os tempos mudaram. Barack Obama é negro e é presidente dos Estados Unidos. Leila Lopes, Miss Angola,  é negra e é Miss Universo.  Não sei até que ponto a cor da minha pele me fez perder algumas oportunidades, mas consegui o meu lugar ao sol. No entanto, o menino que um dia eu fui não esquece das lágrimas que derramava quando certa pessoa  gracejava:  “Lá vem ele ! O  rabo dele já está saindo! Daqui a uns dias,  ele vai virar macaco! “ 
            Na semana em que se celebra a consciência negra, o menino que um dia eu fui dar as mãos ao vento, olha para o céu, agradece a DEUS pelos encontros e desencontros da caminhada  e grita em silêncio: Que bom que tudo isso faz parte do passado ! Que bom que eu não virei macaco!

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DÚVIDAS E PROMESSAS DE AMOR

Daslan Melo Lima

          Eu tinha onze anos de idade quando mergulhei pela primeira vez em um poema romântico. Uma senhora trouxe um par de sapatos para  meu pai consertar embrulhado em folhas de uma revista e numa delas havia um pequeno poema chamado DÚVIDA, de autor desconhecido, que li e reli inúmeras vezes. 

  Estou ficando com medo / de que este nosso brinquedo / não seja simples assim. /// Junto a ti só te vejo / longe de te só revejo / as horas ainda sem fim. /// E se te vejo não rias / eu penso noites e dias / se também pensas em mim.

        Há dez anos, inspirado nos mistérios do amor-desamor, da ilusão-desilusão e dos encontros-desencontros, criei o poema chamado DÚVIDAS E PROMESSAS DE AMOR.

          Há mil dúvidas no ar / (Nem só as certezas pairam no  ar ) / Era verão de um tempo que se foi / (ou seria inverno de um tempo que não se foi?)  /// O menino que um dia eu fui /  (Será que um dia deixei mesmo de ser menino?) / ao folhear uma revista mergulhou  na beleza de um poema de amor. /// Há mil certezas no ar / (Nem só as dúvidas pairam no ar ) / É verão de um ano que também se permite ser inverno. / O homem que sou ( sem nunca deixar de ser  o menino que fui ) / ainda mergulha naquele poema decorado na infância / E embora nas tardes cinzas sinta a dor do desamor / abraça as manhãs ensolaradas que trazem dúvidas (e promessas) de amor.  

          A um passo de um novo ano, permito-me mergulhar nas dúvidas da caminhada e emergir de braços dados com as promessas que o amor ofereçe.

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Timbaúba-PE, no último sábado de novembro de 2011. 
         

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A ROSA DO AMOR


Daslan Melo Lima


          Por pudor, formação religiosa, temperamento ou bloqueios, há quem levante um muro altíssimo entre o amor e o prazer. O primeiro é visto como algo celeste, superior... O segundo como um sentimento terreno, inferior...  Mas ambos podem dividir o mesmo espaço. 
       Omar Khayam (1050-1123), poeta e astrônomo persa, disse um dia: “Se enxertaste em teu coração a rosa do amor, tua vida não foi inútil, quer tenhas buscado ouvir a voz de Deus, quer tenhas, sorridente, empunhado a taça do prazer.”  
         Não podemos sentir culpa se em certas ocasiões o prazer transborda em nossas taças, desde que a rosa do amor floresça em nossos corações. Quando o amor norteia nossas ações, não brincamos com os sentimentos de ninguém.  Quando o amor norteia nossas ações, as ciladas da paixão passam distante dos nossos corações. 
       Só uma coisa importa ao término da nossa missão no planeta Terra: ouvir um coral de anjos invisíveis cantar que nossas vidas não foram inúteis. 

         Assim Seja!
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Timbaúba-PE, no primeiro sábado do último mês de 2011.
                                                  
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 QUE SEJAS FELIZ, FELIZ, FELIZ...

Daslan Melo Lima

          Não há dúvida alguma de que é muito sofrido o término de uma relação amorosa.  É complicado quando não se tem estrutura emocional para encarar o fim de um relacionamento, onde as pessoas assistem o naufrágio dos sentimentos e dos sonhos envolvidos. E pior quando os dois ou um dos dois torna público as particularidades do casal e as ofensas mútuas chegam à justiça e à imprensa. 
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          Acho bonito quando as pessoas rompem uma relação de forma civilizada. A paixão acaba, o amor acaba, mas a amizade permanece. Quem expressou isso muito bem, através de "Que Sejas Feliz", uma música linda gravada por Carlos Alberto, foi a compositora mexicana Consuelo Velasquez (1924-2005).
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          Que sejas feliz, feliz, feliz... / É tudo o que peço em nossa despedida. / Não pode ser depois de haver te amado tanto. / Assim são essas coisas tão estranhas desta vida. /// Sempre irás contar comigo. / Que importa se chegou o fim do nosso amor. / Ficamos como amigos. / E em vez de despedirmos com rancores e com pranto, / Eu que te amei tanto, quero que sejas feliz, feliz, feliz...
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         Um dia um alguém disse para mim: “Valeu o tempo que passei com você, mas por força das circuntãncias é melhor pararmos por aqui.” Apesar do pranto que ameaçou cair dos meus olhos, pedi a DEUS em silêncio unicamente uma coisa : que dissipasse o rancor que ameçava se instalar em minh'alma. Os anjos invisíveis ao meu redor ajudaram-me a não compactuar com a raiva, o ódio e o rancor, sentimentos negativos e destruidores. Apertei a mão daquele alguém e com um sorriso nos olhos falei com toda sinceridade: “Quero que sejas feliz, feliz, feliz...”
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